A CHANCE


Olha, o dia 16 de março de 2009 ficou marcado para mim. Era uma segunda-feira que poderia ter sido comum, assim como tantas outras vividas, mas aquela segunda foi extremamente sensacional.

Eu estava, por volta das 16h00, retornando ao escritório, isso após realizar uma audiência daquelas tipo “chatinhas”, quando meu celular tocou. Notei que não conhecia o número. Atendi:

- Alô, Professor Passiani? Boa tarde!

Surpreso com a ligação e sem entender, afinal, jamais alguém me chamou de professor, respondi:

- Sim, pois não!

- Olá Professor, tudo bem? Estou ligando a pedido do Coordenador do Curso de Direito qual deseja a sua presença hoje na Instituição para ministrar uma aula. Tudo bem para o Sr?

- Ãh! É, bem... (nesse momento juro que ia mentir, mas)... Claro, lógico, estarei aí, sem problemas (representei bem).

Naquele momento senti um calafrio que arrepiou até o ventre que não possuo. Pois bem. Era o meu momento; a esperada chance. Havia me preparado muito para aquela oportunidade e certamente não a perderia, afinal, sou fã daquele ditado "Se um cavalo selado passar perto de você, suba porque pode ser que ele passe apenas uma vez."

Confesso que inúmeras ordens de desistência afloraram em meus pensamentos, mas não, eu precisava enfrentar aquele desafio. Enfim, nem sei bem se precisava, porém a vida é uma caixinha de surpresas, vamos lá.

Continuei meu trajeto de volta ao escritório. Cheguei, sentei em minha confortável cadeira, olhei para a tela do computador e “pasmem”, deu branco.

Hum, naquele momento me dei conta que não lembrava de nada que estudei, sei lá, acho que foi stress ou, como dizem, síndrome da estreia de um desesperado.

Estarrecido, indignado, mas mesmo assim, destino Faculdade. Lá vou eu.

Amigos, posso falar com propriedade: Que sensação boa é a de estacionar o nosso veículo na vaga dos professores. Eu senti orgulho de mim naquele momento. Nossa, logo eu, que até pouco tempo era aluno, estava ali, naquele instante, estacionando na vaga dos professores convidados.

Bem, vamos lá, pensei comigo: Não deve ser difícil!

O DIA “D”

Cheguei no campus da Faculdade e de imediato procurei a sala dos professores. Chegando lá, disfarçando o meu nervosismo (se é que soube disfarçar), dei de cara com uma jovem simpática, muito carismática, que de imediato se apresentou:

- Olá! Tudo bem? Posso lhe ajudar? (É, naquele momento qualquer ajuda seria de bom tamanho, do tipo abraça-me, socorro, chama a minha mãe)

Respondi:

- Sim, claro, boa tarde! Meu nome é Marcelo e sou professor convidado para ministrar uma aula, porém não sei a turma e tampouco qual a sala e até mesmo como proceder. Pode me ajudar quanto a isso?

Disse ela:

- Claro que sim! Seja bem vindo Prof. Marcelo. Fique a vontade. Logo eu lhe indicarei a sala e a turma.

Ai, meu Deus! Que sonho. Eu na sala dos professores e agora como professor. Nossa, que faço agora? Sei lá, sento, levanto, deito. Não, deitar fica feio, é melhor sentar mesmo. Bebo café ou água? Acho que bebi uns dez copos de café e uns quinze de água. Óh, inquietude implacável, daquelas “red bull te dá asas”.

Na sala, professores começaram a chegar. Para cada qual eu me levantava e cumprimentava, com orgulho, mas disfarçando, como nunca, afinal, não podia demonstrar qualquer sinal de inferioridade, muito embora eu me via tão pequeno perto daqueles gigantes do conhecimento. Quantas experiências pra contar. Àh se eu pudesse furtar uma daquelas experiências, naquele momento seriam tão úteis, assim como um furto de uso. Só que não!

O tempo vai se esvaindo e com isso chegando a minha hora. De longe, escuto meu nome. Era aquele moça simpática, dizendo:

- Professor Passiani? Vamos?

Disse eu:

- Não! Digo, sim, claro, vamos! (Aff, que tormenta)

A PRIMEIRA AULA

Passos no corredor. Pulso acelerado. Já sei, vou desmaiar, mas não, não posso. Caminhada longa até a sala de aula. Chegamos (Ei, moça! Posso voltar?).

Primeiro pé na sala de aula e me dou conta da importância de ser aluno. Quero ser aluno, posso me sentar? É, é verdade sim. Existem vozes em nosso interior que por vezes não querem se calar.

- Atenção, sala, boa noite! Tudo bem? Disse a moça simpática.

- Este aqui é o Prof. Passiani, convidado da nossa Instituição e que irá ministrar uma aula de Direito Empresarial pra vocês.

- Professor, novamente, seja bem vindo. A sala é toda sua.

Olha, na verdade, pensava comigo, eu não quero a sala, posso sair?

A moça então sai da sala, fecha a porta e me deixa lá, plantado na frente de uma lousa enorme e diante de, aproximadamente, uns 40 alunos, mas que a bem da verdade pra mim eram uns 200 alunos, verdadeiramente, assim como nas histórias de pescadores.

- Olá pessoal, boa noite! Tudo bem? Disse eu, a turma.

- Simmm! Responderam.

- Que bom. Retruquei.

Naquele momento as palavras sumiram. Fiquei de costas para a turma, peguei um giz, olhei para a lousa ainda vazia, fechei meus olhos por instantes e pedi:

- Deus querido, Papai, não deixe que este seu filho seja humilhado. E que diminua eu pra que tu cresça Senhor. Peço sua ajuda, me orienta, fale por mim, me use como seu instrumento.

Segurei o giz e comecei a anotar item a item os tópicos na lousa. Como eu não era muito conhecedor de direito empresarial, resolvi trazer a matéria para o campo do direito penal e passei a descrever tópicos sobre os crimes nas relações mercantis.

Pronto, acabei. Anotem tudinho. Virei para a sala e a vi repleta de alunos, todos anotando minhas resenhas, alguns proseando, outros folheando cadernos e livros, outros cutucando o nariz, disfarçadamente, ou seja, alunos normais de graduação.

Calmamente esperei todos anotarem. Era o momento da minha fala e ninguém me ensinou como começar, mas era isso, algo precisava ser dito.

Comecei a falar. Poucos minutos do inicio de minha fala aparece na sala aquela moça simpática, aquela da sala dos professores e me pedindo licença, diz:

- Professor, os alunos da turma “x” estão sem aula e poderíamos transferi-los para sua sala?

- Não, de jeito nenhum, nem pensar (queria dizer isso, mas...) Sim, claro, será um prazer. Mande-os entrar. (Naquele momento aquela moça já não me parecia mais simpática como antes, passei a odiá-la, mas só por instantes).

E assim, mais uns 20 alunos adentraram. É, Senhor, meu Deus, obrigadinho por me ouvir! Amém.

Bom, enfim, voltei de onde parei. Comecei a falar novamente. Eu estava preso, apreensivo, tentando ser quem eu não era e daí notei que deveria me soltar, ser eu, falar como sempre falei, ser o Passiani. A aula era minha e eu estava no comando. Precisava passar ao aluno o que pra mim não foi passado enquanto aluno. Precisava ser eu.

Ufa! Que alívio. Fiz toda a apresentação dos temas. Conversamos, dialogamos, proseamos sobre a matéria, demos risadas, bagunçamos em sala de aula. Foi fantástico! Obrigado, meu Deus.

O HOJE

Já se passaram 7 anos e aqui estou. Vi turmas se formarem. Eu dei aulas para graduandos, pós graduandos, cursinhos preparatórios, cursos etc. Conquistei mais amigos, que alunos. Dividimos salas, comentários, temas, tópicos, mas até hoje sinto o mesmo frio na barriga e a sensação qual resulta minha vontade de continuar, de lecionar.

Ser professor pra mim é tudo. Eu sou assim. Entrego o que aprendi e se pra mim foi bom, revelo em sala de aula. Gosto de ajudar, de caprichar, de servir.

Mas de que adiantaria tanta vontade se não fosse o carinho com o qual fui recebido pelos meus alunos nesses longos 7 anos. Com isso, eu digo: Obrigado! Sim, meu muito obrigado a você, aluno, que nunca desistiu dos seus sonhos. Que dividiu comigo a morada do conhecimento. Que fantasiou, riu, chorou, se desesperou, lutou, reclamou, brigou e até contestou, ou seja, não importa o quanto e o como, mas eu repito: Muito obrigado!

MINHA DICA

Lembra dessa história lá no comecinho? Eu tive medo de falhar, mas era meu sonho e então o que fazer? Fiz minha escolha. Resolvi aceitar o desafio. A você, meu amigo, minha amiga, digo o mesmo: Confia, vai, siga em frente, enfrente o seu medo. Confie em Deus, entregue-se ao sonho. Idealize. Posso lhe assegurar: Vale a pena! E se cair, não der certo, mesmo assim: Vale a pena! Nunca, jamais se sinta inferior. Somos parte de um mundo e o mundo somos nós. Temos de aprender a viver com as nossas diferenças e somos diferentes, porque somos parte dessa natureza linda, assim denominada vida. Não se pede a girafa que corra como um guepardo, como não se pede ao guepardo que colha nas árvores os melhores frutos. Cada um de nós tem uma qualidade especial e isso precisa ser aflorado, destacado. Tudo depende de você. Invista mais em seus sonhos e verás um resultado maravilhoso.

Um grande beijo deste Professor e Feliz Dia dos Professores!

Marcelo Passiani


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